Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

A morte e o sapateiro


Nunca tive medo da morte, achei que houvesse algo de branco e libertário nela. Luzes e corredores infinitos. Na minha infância a morte tinha uma tristeza glamourosa como nos filmes: guardas-chuvas, roupas pretas, uma garoa fina e o salmos com seu cajado e seus vales verdejantes. Agora, estava ali, diante de mim, um corpo grande e inchado para caber na fúria tempestuosa da vida, um sol bonito e brilhante de uma falsa primavera e um Cristo gordo que nega mostrar o sangue quente de suas feridas. Lembro que sempre havia uma atmosfera tenebrosa quando meu pai lustrava seus sapatos e cortava seus cabelos. A morte é um velho e cansado sapateiro, ele ruminava entre os dentes amarelos e sem frestas. Não havia nenhum tipo de falhas naquele homem. Eu observava-o com olhos gulosos de infância. Eram rituais que acompanhavam as mortes e sua boca, quase cotidianamente muda, procurava explicações para o obtuso, ele que era péssimo até mesmo com o óbvio. Sentia um cheiro amargo de flores e grama, milimetricamente plantada com a petulância própria dos vivos. Mas não sentia dor, isso era privilégio dos homens que já tinham passado dos quarenta, eu era nova demais para conhecer o gosto telúrico e aveludado da saudade. Aquele caixote de madeira afundava na boca da terra, enquanto mãos espremiam botões de rosas de todas as cores. E a morte me parecia ainda mais branca. A mortalha me fascinava, vestir-se para um jogo, no qual não há adversários nem juízes, apenas derrotados.
Do meu lado uma muda apalpava um lenço de pano, dele saiam centenas de pássaros negros e cobriam o teto do velório, enquanto isso ela flertava lascívia com o silêncio da revoada.
- Quem é?
- Nelson.
- Era seu marido?
- Não.
Poderia responder milhares de coisas para aquele trombadinha, no entanto, não disse nada. Afinal, ele sabia tanto da vida e tão pouco da morte, que nenhuma explicação seria plausível. Ele pisava os pés encardidos nos defuntos, violava suas covas, mas não sabia nada sobre morrer. A morte era uma multidão de gente falando de feitos estrangeiros, uma intrusa, eram corvos penetrando virgens.
Os gatos pardos reviram a noite e anseiam serem vistos.
Penso em arrastar-me e seguir o cortejo. Entretanto, não há mais cortejos, apenas os urubus esperam famintos do lado de fora.

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 37


Persigo a fúria amarela dos escorpiões. As ferroadas adormecem meus tendões e meus rancores. Vozes silenciosas e gramofones me distraem. As argolas alongam meu pescoço e não posso ver a gangrena dos meus próprios pés. Lúcio ri da minha paralisia. O presente congelado e soberano. A vida deixada para depois. Tantas histórias se passaram e não mudaram o curso tortuoso das minhas vértebras. Escolioses e lordoses me pouparam de carregar o mundo nas costas. Corpos sãos apodrecendo na lama dos leitos. Nossa cama vasculhando nossos segredos mais imundos. Eu sorvendo água turva de sua boca. Frutas verdes amarrando minha língua. Castigos imprevisíveis para meus crimes brancos. Armas brancas, mãos negras e culpadas. Não perco a mania de inverter os jogos, virar tabuleiros e te amaldiçoar pelas minhas faltas. Apalpo teu corpo, procuro as feridas, remexo suas vísceras como um São Tomé insano. Não vejo verdade nenhuma, sinto apenas um sangue coagulado e morto. Descalcifico seus ossos, você resistiu às piores quedas, continua em pé, à espreita. Eu continuo pisando nos mesmos ovos, triturando as mesmas pedras, chutando mistérios ao amanhecer. Você dorme em posição fetal, sem se importar com o destino da tempestade. Barcos de papel afundam no nosso riso. Desvie, meus olhos são parados, frios e fatais como abismos.

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 36

A chuva chega e traz um cheiro forte de terra, mágoa e receio. Paro o meu destino, sinto as rodas e engrenagens enferrujadas do meu corpo. Não posso simplesmente fingir que os pingos não existem e não me incomodam. Eles doem como mordidas de loucos raivosos em minha carne, me perseguem feito cães sarnentos e famintos e aumentam minha fome nunca saciada. Agora Lúcio está lá, flagrando os momentos, na sua inércia idiota de sempre. Carrego Ele dentro de mim e ele pesa míseros 200 quilos. Ele vive na sua belle époque. O ciúme perfura minhas tripas, invade minhas veias. São agulhas quentes de sangue e insulina. Calvários, enterros e missas de sentimentos vivos. A maioria das coisas é enterrada viva, posso ver as unhas agredindo o caixão e perfurando os ossos. Calcificações. Não existem dias ou noites para os enfermos, a vida se perde na atemporalidade, se esvai nos intervalos das insignificâncias. Presto atenção na ausência de cor dos rejuntes. Posso sentir, mas não posso ver o tamanho das dentadas.

Domingo, 10 de Maio de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 35

Saio e o asfalto engole o resto de vida dos meus sapatos. Eles enxergam o que jamais serei capaz de sonhar em ver. Eles pisam em cima daquilo que penso entender. Choro, pois não posso esconder minha cegueira atrás de óculos escuros. Sons metálicos me invadem e domam meus ouvidos. É o bater de asas das grandes e covardes moscas azuis. Meus dedos sangram e me condenam. Lâminas e crucifixos. Não há crimes perfeitos, todos sabem disso, mas eu sempre ignorei as grandes verdades, elas me pareciam com os rótulos enganosos e com as fórmulas fáceis. Eu levanto com dificuldade e caio em minha própria merda. Tento me consolar lembrando do cheiro do café da minha mãe preenchendo tudo, mas logo vem os zunidos, o enxofre, os olhos doces e mortos de Belinha... Meu passado todo em desalinho. Meu corpo costurado, vermelho e cremado. Colcha de retalhos. O vento bate e leva tudo, até o pior de nós, que antes parecia tão inútil e dispensável. Tateio meu corpo e finjo orgasmos. Clitóris e lábios não são suficientes. Gemidos me calcificam. Pedras em coma submergem. Faço dos meus lençóis o leito frágil do meu rio. Não há graça nem louvor nos meus suicídios diários.

Terça-feira, 28 de Abril de 2009

Calibre 12

“A culpa é do hipócrita (... ) que atira a pedra e esconde a mão.”
Documentário Estamira


Giro o tambor. Conto até seis e escuto o clique. Miro num labirinto colado na porta do quarto. Olho e disparo. Não foi dessa vez. Atiro num pardal, nessa cidade os pardais se multiplicam a cada dia, parece uma febre, uma epidemia. Eles balançam as cabeças e aceitam as balas com a mesma naturalidade e cortesia que agradecem pelas migalhas. Existem pessoas que admiram o voo libertino das aves, eu prefiro seus velórios humildes nas sarjetas.
Pego um bloco em cima da escrivaninha e verifico alguns nomes. A pia está cheia de louça, a cafeteira quebrou e meu estômago está colado nas costas. Mastigo um pão amanhecido e saio. O trabalho espera.

Giro em frente ao espelho. Conto quantas rugas nasceram desde que nos casamos. Miro meu corpo. A silhueta continua a mesma, a não ser por uma pequena saliência na região do abdômen, nada muito perceptível. Atiro uma pequena bola de tênis no cachorro, ele corre, dá voltas sobre o seu corpo e em seguida lambe minhas mãos. Fidelidade canina. Eu me intrigo com os cães que tentam devorar o próprio rabo. Ele ainda dorme, mas parece permanecer em eterna vigília, observando tragédias com o canto imundo dos olhos. Alguns pelos grisalhos cobrem seu peito. Meu Deus, conceda a esse homem um coração de carne, cansei de ruminar pedras e de quebrar picaretas.
Penteio o cabelo, coloco os sapatos e saio. A vida espera. Centrífuga.

Nosso encontro aconteceu ao acaso, eu sei que algumas pessoas não acreditam nisso, não sou uma delas. Estava sentada num café, como faço todas as manhãs, há tempo não me sinto mais à vontade em casa. A colher caiu da minha mão e ele gentilmente se abaixou e pegou. Começamos a conversar e foi necessário pouco mais de meia hora para percebermos o quanto tínhamos em comum. Depois disso não é necessário contar, aconteceu o previsível. Ele tinha o mesmo sorriso do Felipe antes do casamento. Eu fechava os olhos e podia jurar que o tempo regressara, era Felipe ali comigo, devorando meus mistérios, sorvendo cada pedaço insípido de mim.

Ela jamais desconfiou de nada. Romântica demais, sonhava com amores que salvam e não retalham. Não posso negar que ela mexeu comigo e que, talvez, em outra situação até me deixasse levar. Mas eu estava ali a trabalho, e eu respeito meu trabalho. O trabalho dignifica o homem, não é o que dizem? Admito que me custou caro fazer o que fiz. Não tinha outra escolha, eu era funcionário do seu marido, temporário, mas era. Daria tudo para tocá-la novamente. Seus cabelos longos e ruivos, a boca...
Vendo seus olhos. Giro o tambor. Conto até seis e escuto o clique.
Olho o seu corpo inerte, um mar vermelho explode em mim. Sublimo. Um espelho branco me espera no banheiro. No lugar das lágrimas, o pó.

No céu, os últimos pardais sustentam o poente, enquanto cães famintos devoram o próprio rabo.

Terça-feira, 21 de Abril de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 34

Galos cantam e não assustam meus pesadelos. Não existem despertares ou regressos para os seres inóspitos que vivem em vigília. Fendas sustentam meus mundos. As manhãs têm cheiro de carne e sangue, minhas manhãs acordam tateando o ódio dos anoiteceres. Tenho centenas de olhos cobrindo meu corpo e nenhum deles é capaz de prever a verdade. Cataratas, traves e glaucomas. As mentiras são minhas hóstias de cada dia: purifique e ensine-me a morrer um dia de cada vez, enquanto tetos desabam na minha cabeça e partem meus ossos. Fêmur exposto, vértebras e flautas rompidas. As notas das músicas penetram meus ouvidos como lanças quentes. São Sebastião ajoelha em meu altar e chora. E eu penso, se ao menos eu soubesse cantar o mundo não me retalharia. Não seria necessário costurar colchas e mais colchas para reinventar histórias mortas. No entanto, quem acreditaria em uma Sherazade cega e tola? Lucio permanece em silêncio, ruminando seus duelos. E eu sei que alguns cortes e amputações me atingirão, suas espadas me procuram cheias de sutilezas e rancor. Véus despencam do meu rosto e repetem promessas desfeitas. Um rio verde se abre diante de mim e Jesus lava meus pés com devoção divina.

Sábado, 18 de Abril de 2009

Blogagem Coletiva - Quem foi Monteiro Lobato?




EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Quem já foi criança sabe que não é necessário grande sacrifício para sair do lugar, basta utilizar o pó de pirlimpimpim e voar através do espaço. E eu que me julguei tão atemporal ao procurar palavras para uma crônica percebi o tempo correndo sólido e pedregoso embaixo dos meus pés. Carvalhos submersos em um sítio do meu passado. Vinte anos atrás e eu poderia jurar que todas as bonecas falavam e sabugos de milho pensavam, e como pensavam!!! Ainda hoje olho com respeito às grandes plantações, se a raposa de Saint-Exupery lembra-se do príncipe ao ver os trigais, eu recordo com delícia do Visconde de Sabugosa ao avistar o milharal. Não enxergo apenas Ele, mas uma infância onde haviam risos e quintais.

Não posso dizer com exatidão a influência de Lobato na minha literatura, mas com toda certeza ele esteve presente nas minhas fantasias infantis, não como escritor, porque naquela época eu nem sabia direito o que isso significava, ele era um grande companheiro de aventuras, alguém que não me conhecia, contudo, adivinhava meus pensamentos mais absurdos, talvez tenha surgido aí minha paixão pelo realismo-fantástico.

Monteiro ensinava sem ser chato ou pedante, falava de guerra sem ser pacifista ou soldado. Ou melhor, talvez o sucesso da obra de Lobato foi exatamente sua falta de posição política, ele não dizia nada, absolutamente nada, em compensação, Emília era uma pedra no sapato de qualquer um, e isso era realmente encantador, principalmente para uma boneca de pano mal acabada, tinha a coragem de criança e a petulância dos adultos. Numa atitude totalmente impulsiva, ela foi capaz de transformar homens em miniaturas porque estava chateada com a tristeza gerada pela guerra. Agora, confesse comigo, se você tivesse a chave do tamanho, quantas vezes teria transformado a humanidade num bando de formigas, e se bobear teria até esmagado algumas, não é mesmo??? Emília é a boneca que toda mulher almeja se tornar, casa e descasa a hora que bem entende e não tem papas na língua, como diria minha querida e saudosa avó, que se parecia muito com Dona Benta. Monteiro foi um verdadeiro Jung da alma infantil, ele encontrou figuras que é comum a toda criança. Foi um mestre no que fez.

Também não posso me esquecer que encontrei com Monteiro bem mais tarde em suas crônicas para adultos. Descobri seu engajamento de uma forma bem mais panfletária, ou talvez, eu é que tinha crescido. Confesso, admiro a coragem e a perseverança desse homem, se eu tivesse um décimo de sua força, teria tudo que desejo. Seja como adulto ou como criança, Lobato é uma leitura obrigatória. Lembrei dos ditos de uma velha senhora: “É, Deus sabe como fazer a mulher!!!”. Tomaria suas palavras e diria: “É, Monteiro sabe como fazer um personagem!!!”. Aliás, ele não fez personagens, ele criou universos impensáveis, ou melhor, possíveis somente na cabeça das crianças e como é mágico ver com os olhos primitivos de uma criança, olhos imaculados. Queria que a minha morte tivesse o encantamento primeiro dos livros de Monteiro.




Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

Frida Kahlo: um ensaio

PESSOAL, TEM UM TEXTO SOBRE A FENOMENAL PINTORA MEXICANA FRIDA KAHLO NO AMÁLGAMA. OS INTERESSADOS POR FAVOR ACESSEM:http://www.amalgama.blog.br/04/2009/frida-kahlo-maravilhosa-e-visceralESTA ARTISTA MERECE UMA LEITURA.

Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

Catedral


Desfaço os nós cegos dos meus dedos,
isso não me confere alegria ou dor
nem dissimula a tristeza que vaza
solitária dos meus olhos

Falsidades ideológicas,
apesar dos meus heterônimos continuo
cavalgando sozinha no breu da noite
entre cabarés parisienses
e anões de Toulouse-Lautrec.